Gays querem dados sobre violência

22 Abr

Transcrevemos, na íntegra, o texto constante da peça publicada no Semanário SOL a 17 do corrente mês de abril de 2013, por Margarida Davim e Sónia Graça

Fonte: http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=73203

Através de um inquérito inédito, a associação de defesa dos homossexuais está a recolher informação sobre violência doméstica nesta comunidade. O projecto tem apoio da Câmara de Lisboa e prevê formação para polícias. Nos últimos dois anos só há registo de 19 queixas na GNR.

Quando o jovem professor de Educação Física se casou com um conhecido advogado de Beja, mais velho, estava longe de imaginar que um dia faria queixa por violência doméstica. Sérgio (nome fictício) já não podia falar com ninguém por causa dos ciúmes do companheiro.

A agressão mais grave aconteceu no ano passado, depois de uma violenta discussão motivada pelas desconfianças de Pedro (nome fictício). Nesse dia, Sérgio foi ao posto da GNR para apresentar queixa. Esta atitude está, porém, longe de ser o padrão na comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgenders), já que muitos acabam por silenciar as agressões de que são vítimas. «Ainda há muita vergonha ou assumir que se está numa relação violenta. As pessoas só querem mostrar o lado mais positivo da comunidade LGBT, porque ainda há muitos preconceitos», lamenta António Guarita, o coordenador do projecto Agressão Não – uma iniciativa da Opus Gay que pretende levantar o véu sobre um tema tabu: a violência doméstica entre casais homossexuais.

O primeiro objectivo desta campanha inédita, que tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, passa por recolher informação sobre a violência nesta comunidade. Para o conseguir, o projecto lançou um questionário online, onde cada membro da comunidade LGBT pode responder sobre as relações em que estão. «É muito difícil obter dados oficiais específicos por orientação sexual. Mas os números são importantes para compreender a dimensão do fenómeno», explica António Guarita.

Para já, os questionários online destinam-se apenas a gays residentes em Lisboa, mas se outras autarquias apoiarem o projecto, a Opus Gay pode levar o Agressão Não a outras cidades. Até agora, o site criado pela Opus Gay já recebeu quase 30 respostas (1) e pedidos de ajuda. Mas para conseguir uma amostra estatística representativa da comunidade, o projecto estima que sejam necessárias pelos menos 200 (2).

O Agressão Não vai passar também por acções de formação para quem está nas esquadras da PSP e nos postos da GNR a receber as queixas das vítimas. «Há um trabalho de sensibilização a fazer. Muitas vezes, há receio de ir fazer queixa e ser discriminado na esquadra», diz o coordenador do projecto.

Queixas aumentaram em 2012

O SOL tentou obter dados oficiais junto da PSP e da GNR sobre violência entre casais do mesmo sexo. A PSP informou, contudo, que «não executa diferenciação estatística em função da orientação sexual, quer dos agressores quer das vítimas».

Já a GNR – que tem 23 núcleos de investigação e apoio a vítimas específicas nos quais estão cerca de 300 militares com formação especial – registou 19 queixas nos últimos dois anos. Segundo os dados desta polícia, no ano passado foram os homens quem mais denunciou este tipo de crime: oito em todo o país, contra apenas três participações feitas por mulheres. Já em 2011, ano em que foram registadas apenas oito queixas, mais de metade (cinco) foram apresentadas por lésbicas.

«Estas vítimas ainda demonstram muito constrangimento em expor a situação porque sentem que a sociedade, incluindo a Polícia, não lhes dá respostas», sublinha o tenente-coronel João Nascimento, admitindo que nestes casos «a recolha de prova é mais difícil até porque a relação é muitas vezes mantida em segredo».

Grande parte das vítimas, confirma António Guarita, opta pelo silêncio: «Quando Carlos Castro morreu, a comunidade ficou muito chocada e falou-se muito de violência entre casais homossexuais. Mas o tema foi caindo», admite, acrescentando ser «complicado denunciar estes casos, porque as pessoas muitas vezes não se assumem e mantêm as relações ocultas da família e dos amigos».

E nem mesmo o facto de o casamento homossexual ter sido legalizado veio mudar muito este cenário. «Acho que não teve grande influência», observa Guarita, lembrando que há várias formas de violência. «Muitas vezes nem é dentro do casal, mas sim por parte de familiares que agridem a pessoa que se assumiu. E há também casos de violência psicológica que têm que ver com a dependência financeira da vítima».

margarida.davim@sol.pt

sonia.graca@sol.pt

Notas importantes:

Dados constantes da respetiva peça foram publicados incorretamente.
Assim, divulgamos os dados corretos:

(1) 83 respostas
(2) pelo menos 250

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